Meses de silêncio e de repente… um mail. Para que eu saiba que pensas em mim.
Que queres manter-te em contacto. “O tempo é que não é muito….não é por falta de vontade….”
Desapareceu o frio na barriga quando te vejo chegar. A surpresa não.
Pergunto-me porquê agora? Tantos meses depois daquele dia de Dezembro.
Pergunto-me se terás ficado a pensar nisso.
É terno o teu mail. Surpreendente e terno.A minha amiga acha que tens vontade de estar por perto. De manter entreaberta uma porta que já foi fechada.
Eu prefiro que vás. De vez. E em silêncio. Há portas que se fecham para sempre.
11 de março de 2009
15 de fevereiro de 2009
Choro amanhã, está bem?
Li algures, há muito tempo, numa qualquer revista dita “feminina”, que quando estivermos mais em baixo e a precisar de férias, podemos recarregar baterias num terminal de aeroporto. Hoje percebi porquê. Gosto de aeroportos. Do bulício, das pessoas de um lado para o outro. Dos rituais. Da promessa de viagem.
Mas hoje não quero estar aqui. Descubro que é a primeira vez que me despeço de alguém que amo num aeroporto. Sou sempre eu quem parte.
Dia longo, este. De emoções fortes. Feliz e amargo ao mesmo tempo. Por muitas razões, a muitos níveis. Dia de “nervoso miudinho”. De risos e cumplicidades.
E de lágrimas também. Como agora, aqui. Neste aeroporto de que tanto gosto. O mano vai embora daqui a pouco. Para Angola. Por muito tempo. Para sempre?
Não veio ninguém. Não sei porquê, mas não veio. Talvez seja mais fácil assim. Para quem? Para ele? Não creio. Eu vim. Por ele. Pelas bambinas. Por mim também.
A mais velha não se conteve e já chorou em casa. A pequenina brinca e vive o aeroporto pela primeira vez.
Está mais séria. Sabe que é preciso não chorar ao pé do pai. Faz muitas perguntas. Sobre viagens, Sobre aviões. Sobre “para onde vão as malas? Porque é que o pai não traz a mala grande?” quando depois do check-in só ficou a bagagem de mão.
Ganho um novo encanto aos seus olhos “já andaste de avião”??? Já meu amor. Muitas vezes, felizmente. E se depender de mim, hei-de voar muitas mais.
Fascinante esta descoberta :) “Quando formos visitar o pai, vens connosco. Já sabes como é.” A mãe sorri e concorda. “Sim, é melhor trazer alguém com experiência”.
E depois é o adeus. Não há como adiar. Ele está contido, solene. Quase não fala. É sempre assim. A pequenina abraça-o muito. E os olhos brilham mas mantém-se firme “entrou uma pestana no meu olho”. Meu amor. Menina valente, esta pequenina. A mais velha atira-se nos braços do pai em pranto mas também ela acaba por se conter. Para o pai não ir embora triste.
Como conter as lágrimas quando o “até já” parece ser para sempre?
De saída, brincamos, eu e a mãe, com tudo o que vamos fazer quando formos, também nós, viajar ao encontro do pai. Que gira vai ser a viagem de avião :)
Mas a pequenina já aguentou demais. E de repente está a chorar. Sem dizer nada. Quando a mãe pergunta “então…?” responde naquela voz doce que só ela tem “tenho saudades do pai…”
A mãe é um doce em ternura para aquelas duas filhas. Agora podem, o pai já não vê. Já não fica triste.
E eu fico ali a dar colo às três. Afinal, foi para isso que vim.
Pelo sim, pelo não, choro amanhã, está bem?
Mas hoje não quero estar aqui. Descubro que é a primeira vez que me despeço de alguém que amo num aeroporto. Sou sempre eu quem parte.
Dia longo, este. De emoções fortes. Feliz e amargo ao mesmo tempo. Por muitas razões, a muitos níveis. Dia de “nervoso miudinho”. De risos e cumplicidades.
E de lágrimas também. Como agora, aqui. Neste aeroporto de que tanto gosto. O mano vai embora daqui a pouco. Para Angola. Por muito tempo. Para sempre?
Não veio ninguém. Não sei porquê, mas não veio. Talvez seja mais fácil assim. Para quem? Para ele? Não creio. Eu vim. Por ele. Pelas bambinas. Por mim também.
A mais velha não se conteve e já chorou em casa. A pequenina brinca e vive o aeroporto pela primeira vez.
Está mais séria. Sabe que é preciso não chorar ao pé do pai. Faz muitas perguntas. Sobre viagens, Sobre aviões. Sobre “para onde vão as malas? Porque é que o pai não traz a mala grande?” quando depois do check-in só ficou a bagagem de mão.
Ganho um novo encanto aos seus olhos “já andaste de avião”??? Já meu amor. Muitas vezes, felizmente. E se depender de mim, hei-de voar muitas mais.
Fascinante esta descoberta :) “Quando formos visitar o pai, vens connosco. Já sabes como é.” A mãe sorri e concorda. “Sim, é melhor trazer alguém com experiência”.
E depois é o adeus. Não há como adiar. Ele está contido, solene. Quase não fala. É sempre assim. A pequenina abraça-o muito. E os olhos brilham mas mantém-se firme “entrou uma pestana no meu olho”. Meu amor. Menina valente, esta pequenina. A mais velha atira-se nos braços do pai em pranto mas também ela acaba por se conter. Para o pai não ir embora triste.
Como conter as lágrimas quando o “até já” parece ser para sempre?
De saída, brincamos, eu e a mãe, com tudo o que vamos fazer quando formos, também nós, viajar ao encontro do pai. Que gira vai ser a viagem de avião :)
Mas a pequenina já aguentou demais. E de repente está a chorar. Sem dizer nada. Quando a mãe pergunta “então…?” responde naquela voz doce que só ela tem “tenho saudades do pai…”
A mãe é um doce em ternura para aquelas duas filhas. Agora podem, o pai já não vê. Já não fica triste.
E eu fico ali a dar colo às três. Afinal, foi para isso que vim.
Pelo sim, pelo não, choro amanhã, está bem?
4 de fevereiro de 2009
31 de Janeiro
A minha menina casou.
Num dia que começou bonito e acabou em noite de temporal.
Num dia em que espero que tudo tenha corrido exactamente como ela esperava, ou ainda melhor, a minha menina casou.
E foi bonito. A minha menina e o meu "novo menino" estavam felizes.
Plantaram, juntos, uma árvore.
E eu espero que cresça. Para sempre.
Num dia que começou bonito e acabou em noite de temporal.
Num dia em que espero que tudo tenha corrido exactamente como ela esperava, ou ainda melhor, a minha menina casou.
E foi bonito. A minha menina e o meu "novo menino" estavam felizes.
Plantaram, juntos, uma árvore.
E eu espero que cresça. Para sempre.
1 de janeiro de 2009
Escrever o teu nome...
Vou escrever o teu nome numa folha de papel. Dizer-te o quanto te amo e quero. A pele, o toque, o desejo, o olhar. Mesmo sabendo que amo um desconhecido fora das quatro paredes do nosso quarto.
Que pouco mais sei de quem és, do que pensas, do que sentes. Esquecer que não foi essa a tua escolha, que não sou eu quem acorda ao teu lado em cada manhã.
Dizer-te que desprezo a tua cobardia mais do que lamento a escolha. Que o “nunca”, “ninguém”… “mato-me”… são tão ridículos e tão pequeninos que fazem com que deixes de valer a pena.
Vou escrever o teu nome numa folha de papel. Pedir-te que partas para não mais voltar. Porque foram dias e não horas no meu aniversário. Porque me fazes sentir uma adolescente parva quando resolves dar sinal de vida.
Porque podes sempre no dia antes ou no dia seguinte, mas raramente quando quero e posso. Porque já não é bom e não me faz feliz. Porque nunca me dizes que estou bonita, nunca partilhamos um livro ou uma viagem, um filme ou um pôr-do-sol. E eu não quero nem preciso de ti na minha vida.
Vou escrever o teu nome numa folha de papel. Dizer-te que sou mais do que um “banco” ou alguém com quem podes contar. Que fico feliz por gostares tanto da tua mulher, da tua família, mas que também podias gostar um bocadinho mais de nós de vez em quando. Que te adoramos e estamos sempre cá e que gostávamos de sentir que também tens saudades nossas e que é bom estar perto.
Vou dizer-te que preferia que tivesse sido diferente o “pós-natal”. Que vou sentir muito a tua falta mesmo que agora raras vezes te veja. Que sinto o coração apertado nesta despedida sem data marcada de reencontro. Que quero muito que o teu sonho se cumpra porque te faz feliz, mas o atlântico é muito grande e tu estás muito longe e eu preferia ter-te por perto mesmo quando não te vejo…
Vou dizer-te que te amo e que já tenho saudades tuas. E que vou estar sempre, sempre, sempre aqui. Mesmo quando te digo “não”.
Vou escrever os teus nomes numa folha de papel.
Os dias doídos de Abril no meu peito. As pequenas/ grandes coisas que me amachucaram “um bocadinho” neste ano que agora terminou. O meu “umbigo”. A minha amiga, A minha “outra” amiga também. O meu emprego.
Vou escrever o teu nome numa folha de papel.
De ti, meu menino. De ti, meu antigo amor. De ti.
Dos dias doídos de Abril. Do meu umbigo. Da minha amiga. Da minha “outra” amiga também. Do meu emprego.
Dos que amo e me amam. Dos que me deixam “gostar de ti”. E dos que nem por isso.
E depois, muito devagarinho, queimar tudo. Para que o vento os leve para longe e sobre apenas o que de bom ficou.
Feliz ano novo.
Que pouco mais sei de quem és, do que pensas, do que sentes. Esquecer que não foi essa a tua escolha, que não sou eu quem acorda ao teu lado em cada manhã.
Dizer-te que desprezo a tua cobardia mais do que lamento a escolha. Que o “nunca”, “ninguém”… “mato-me”… são tão ridículos e tão pequeninos que fazem com que deixes de valer a pena.
Vou escrever o teu nome numa folha de papel. Pedir-te que partas para não mais voltar. Porque foram dias e não horas no meu aniversário. Porque me fazes sentir uma adolescente parva quando resolves dar sinal de vida.
Porque podes sempre no dia antes ou no dia seguinte, mas raramente quando quero e posso. Porque já não é bom e não me faz feliz. Porque nunca me dizes que estou bonita, nunca partilhamos um livro ou uma viagem, um filme ou um pôr-do-sol. E eu não quero nem preciso de ti na minha vida.
Vou escrever o teu nome numa folha de papel. Dizer-te que sou mais do que um “banco” ou alguém com quem podes contar. Que fico feliz por gostares tanto da tua mulher, da tua família, mas que também podias gostar um bocadinho mais de nós de vez em quando. Que te adoramos e estamos sempre cá e que gostávamos de sentir que também tens saudades nossas e que é bom estar perto.
Vou dizer-te que preferia que tivesse sido diferente o “pós-natal”. Que vou sentir muito a tua falta mesmo que agora raras vezes te veja. Que sinto o coração apertado nesta despedida sem data marcada de reencontro. Que quero muito que o teu sonho se cumpra porque te faz feliz, mas o atlântico é muito grande e tu estás muito longe e eu preferia ter-te por perto mesmo quando não te vejo…
Vou dizer-te que te amo e que já tenho saudades tuas. E que vou estar sempre, sempre, sempre aqui. Mesmo quando te digo “não”.
Vou escrever os teus nomes numa folha de papel.
Os dias doídos de Abril no meu peito. As pequenas/ grandes coisas que me amachucaram “um bocadinho” neste ano que agora terminou. O meu “umbigo”. A minha amiga, A minha “outra” amiga também. O meu emprego.
Vou escrever o teu nome numa folha de papel.
De ti, meu menino. De ti, meu antigo amor. De ti.
Dos dias doídos de Abril. Do meu umbigo. Da minha amiga. Da minha “outra” amiga também. Do meu emprego.
Dos que amo e me amam. Dos que me deixam “gostar de ti”. E dos que nem por isso.
E depois, muito devagarinho, queimar tudo. Para que o vento os leve para longe e sobre apenas o que de bom ficou.
Feliz ano novo.
27 de dezembro de 2008
Feliz Natal - parte II
Pergunto-me se terá sido. Fecho os olhos e vejo a mesa farta, os rostos que amo e a conversa solta. Os risos das crianças, os sorrisos pacientes, quiçá mais do que nos outros dias, dos adultos.
Estão ali pessoas que não sei se ou quando voltarei a ver num Natal em volta da mesma mesa. O meu irmão vai partir para Angola sem data de regresso. A minha avó tem quase oitenta anos. Há um aperto no peito apesar das luzes, do brilho, dos risos.
Parto com a sensação do inevitável. Como se algo estivesse prestes a acontecer. O coração está pequenino. A voz apertada na garganta. As lágrimas brilham. E no entanto é Natal. Feliz. É um Feliz Natal.
Pergunto-me se é saudade ou premonição. Talvez seja só a idade. O Natal mudou, não foi?
Éramos muitos à mesa este Natal. Foi o meu presente. Olhar em volta e estarmos todos ali. A mãe, a avó. Os dois manos. Os quatro sobrinhos. Os primos. Os cunhados.
Dancei na noite de Natal. Todas as músicas, reais ou inventadas, de que eu e a pequenina nos lembrámos. Rodopiámos pela sala cheia sem chocar com nada nem ninguém. Pulámos até ficar sem ar. Os dois mais velhos desapareceram no quarto a montar um daqueles brinquedos estranhos e complicados que ele já recebeu. Ouvem-se os risos e um ou outro arrufo de vez em quando. Mas eles entendem-se e volta a ficar tudo bem.
O bebé dorme no colo do pai. Os adultos conversam de tudo e de nada. Em conversas cruzadas que provocam gargalhadas.
E depois há as prendas, os abraços, mais gargalhadas.
E de novo em volta da mesa. Até que vão partindo, em grupo como quase sempre. Ficamos nós. Muitos, ainda assim.
Amanhã, estarão de volta.
Estão ali pessoas que não sei se ou quando voltarei a ver num Natal em volta da mesma mesa. O meu irmão vai partir para Angola sem data de regresso. A minha avó tem quase oitenta anos. Há um aperto no peito apesar das luzes, do brilho, dos risos.
Parto com a sensação do inevitável. Como se algo estivesse prestes a acontecer. O coração está pequenino. A voz apertada na garganta. As lágrimas brilham. E no entanto é Natal. Feliz. É um Feliz Natal.
Pergunto-me se é saudade ou premonição. Talvez seja só a idade. O Natal mudou, não foi?
Éramos muitos à mesa este Natal. Foi o meu presente. Olhar em volta e estarmos todos ali. A mãe, a avó. Os dois manos. Os quatro sobrinhos. Os primos. Os cunhados.
Dancei na noite de Natal. Todas as músicas, reais ou inventadas, de que eu e a pequenina nos lembrámos. Rodopiámos pela sala cheia sem chocar com nada nem ninguém. Pulámos até ficar sem ar. Os dois mais velhos desapareceram no quarto a montar um daqueles brinquedos estranhos e complicados que ele já recebeu. Ouvem-se os risos e um ou outro arrufo de vez em quando. Mas eles entendem-se e volta a ficar tudo bem.
O bebé dorme no colo do pai. Os adultos conversam de tudo e de nada. Em conversas cruzadas que provocam gargalhadas.
E depois há as prendas, os abraços, mais gargalhadas.
E de novo em volta da mesa. Até que vão partindo, em grupo como quase sempre. Ficamos nós. Muitos, ainda assim.
Amanhã, estarão de volta.
24 de dezembro de 2008
Feliz Natal
Neste ano de perdas e tristezas, de sustos e angústias, de dor e mágoas. Neste ano de distâncias alargadas e encontros inesperados.
Neste ano de dias felizes e cheios de sol.
De reencontros. De velhos e novos amores.
Neste ano de buscas e descobertas.
Neste ano de que não vou ter saudades por todas as razões menos aquelas que me farão sempre desejar voltar atrás, quero que saibas que sou mais feliz porque fazes parte da minha vida.
Feliz Natal.
Neste ano de dias felizes e cheios de sol.
De reencontros. De velhos e novos amores.
Neste ano de buscas e descobertas.
Neste ano de que não vou ter saudades por todas as razões menos aquelas que me farão sempre desejar voltar atrás, quero que saibas que sou mais feliz porque fazes parte da minha vida.
Feliz Natal.
21 de dezembro de 2008
Quase, quase Natal...
Resistir. Uma, duas, várias semanas. Calar a pergunta insistente “vais”? O querer e o não querer saber. A dúvida “será que te perguntas o mesmo”? Será que te importa?
Um dia pouco feliz. Um principio triste de uma noite quase sempre no mesmo tom. Um jantar a que eu não queria ter ido e fui. Sem saber porquê.
De repente estás ali. De costas para mim. Não te vejo exactamente, mas sei que és tu. Pergunto-me se também já me terás visto. E se, tal como eu, desvias o olhar e os passos para não ser visto. Se tiver de ser, será.
Vai acontecer isso mais uma ou duas vezes até que fico sem ponto de fuga e tu estás ali, parado à minha frente. Não era para ter sido assim.
O teu olhar e o meu já se tinham cruzado, momentos antes. Não consegui desviar a tempo. Sabias que te tinha visto, não tinha como disfarçar e cumprimentei. De longe. Quase imperceptível para os que estavam ao meu lado. Foi neles que foquei toda a minha atenção logo de seguida, para te perder. Para te deixar ir. Quando hesitaste na minha direcção.
Se tiver de ser, será. E de repente estou sozinha numa sala enorme. Todos debandaram para aqui ou para ali. E no momento em que a percorro para me juntar aos outros, estás ali. Sozinho. Parado à minha frente. A olhar para mim. Não posso evitar-te, fingir que não te vi.
Beijo sem toque. O “olá” de circunstância destas coisas. “Vieste”? eu venho sempre, tu é que não. Ou o meu coração não teria disparado o ano passado quando inesperadamente te percebeu ali. Be still my heart...
“Está tudo bem”. “Estás mais magro”. “Pois, pois estou”. Não é fácil a vida que escolheste ter. Dá trabalho. “Pois, pois dá…” e agora? O que dizer a seguir? Para onde olhar quando não quero ler os teus olhos. Quando não quero que percebas os meus. Faço anos e tu não sabes. Não me dás os parabéns. Não me abraças e desejas felicidades.
Alguém pára ao meu lado. Um dos que tinha debandado por um momento, está de volta. Vamos juntos ter com quem nos espera. “Adeus, gostei de te ver. Fica bem”. Sem olhar para trás. Sem te procurar. Sem querer saber se me segues com os olhos, se me achas bonita ou se te intriga o homem ao meu lado.
Não voltei a ver-te. Não voltei a procurar-te. Está feito.
Se tiver de ser, será.
Um dia pouco feliz. Um principio triste de uma noite quase sempre no mesmo tom. Um jantar a que eu não queria ter ido e fui. Sem saber porquê.
De repente estás ali. De costas para mim. Não te vejo exactamente, mas sei que és tu. Pergunto-me se também já me terás visto. E se, tal como eu, desvias o olhar e os passos para não ser visto. Se tiver de ser, será.
Vai acontecer isso mais uma ou duas vezes até que fico sem ponto de fuga e tu estás ali, parado à minha frente. Não era para ter sido assim.
O teu olhar e o meu já se tinham cruzado, momentos antes. Não consegui desviar a tempo. Sabias que te tinha visto, não tinha como disfarçar e cumprimentei. De longe. Quase imperceptível para os que estavam ao meu lado. Foi neles que foquei toda a minha atenção logo de seguida, para te perder. Para te deixar ir. Quando hesitaste na minha direcção.
Se tiver de ser, será. E de repente estou sozinha numa sala enorme. Todos debandaram para aqui ou para ali. E no momento em que a percorro para me juntar aos outros, estás ali. Sozinho. Parado à minha frente. A olhar para mim. Não posso evitar-te, fingir que não te vi.
Beijo sem toque. O “olá” de circunstância destas coisas. “Vieste”? eu venho sempre, tu é que não. Ou o meu coração não teria disparado o ano passado quando inesperadamente te percebeu ali. Be still my heart...
“Está tudo bem”. “Estás mais magro”. “Pois, pois estou”. Não é fácil a vida que escolheste ter. Dá trabalho. “Pois, pois dá…” e agora? O que dizer a seguir? Para onde olhar quando não quero ler os teus olhos. Quando não quero que percebas os meus. Faço anos e tu não sabes. Não me dás os parabéns. Não me abraças e desejas felicidades.
Alguém pára ao meu lado. Um dos que tinha debandado por um momento, está de volta. Vamos juntos ter com quem nos espera. “Adeus, gostei de te ver. Fica bem”. Sem olhar para trás. Sem te procurar. Sem querer saber se me segues com os olhos, se me achas bonita ou se te intriga o homem ao meu lado.
Não voltei a ver-te. Não voltei a procurar-te. Está feito.
Se tiver de ser, será.
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